Há cidades que devem grande parte da sua imagem a um só nome. Na Figueira da Foz, esse nome é Isaías Cardoso — o arquiteto que, ao longo de meio século, desenhou alguns dos edifícios que hoje definem a identidade da cidade. Conhecer a sua obra é conhecer melhor o lugar onde a Mondego também trabalha.
Um figueirense formado no Porto
José Isaías de Oliveira Cardoso nasceu a 30 de setembro de 1922, na freguesia de Alhadas, no concelho da Figueira da Foz. Formou-se em arquitetura pela Escola Superior de Belas Artes do Porto, concluindo o curso em 1954, e começou a exercer ainda nessa década.
Além da arquitetura, era um apaixonado por teatro e, na juventude, um bom músico — uma sensibilidade que se reflete no cuidado e no lirismo de muitos dos seus edifícios.
A Piscina-Praia: a obra que o revelou
Em 1950, ainda estudante, Isaías Cardoso recebeu do empresário figueirense Augusto Silva o convite para projetar uma piscina de mar na artéria mais importante da cidade. Nascia assim a Piscina-Praia — a sua criação mais emblemática e um marco do modernismo português junto ao Atlântico.
O conjunto da Piscina-Estalagem e da Esplanada Silva Guimarães viria a ser classificado como imóvel de interesse público pelas entidades do património, um reconhecimento do seu valor arquitetónico e cultural.
Uma cidade desenhada por uma mão
Ao longo da carreira, Isaías Cardoso assinou vários dos edifícios que estruturam a Figueira da Foz. Entre eles conta-se o Museu Municipal Santos Rocha, que desenhou e de que sempre se orgulhou — não por acaso, foi no auditório desse museu que a cidade o homenageou.
A recorrência da sua linguagem em tantos pontos da cidade deu origem à expressão que hoje o define: “um arquiteto, uma cidade”.
Um legado modernista
A obra de Isaías Cardoso inscreve-se no movimento moderno: volumes limpos, horizontalidade, relação atenta com a luz e com o lugar, e uma honestidade construtiva que dispensa o excesso decorativo. É uma arquitetura que continua a inspirar leigos e profissionais.
Em 2001, o arquiteto doou todo o seu arquivo de obras à Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, a sua escola formadora — garantindo que o seu percurso ficaria disponível para o estudo de futuras gerações.
Reconhecimento e memória
O seu contributo foi distinguido em vida: homenageado pelo Rotary Club da Figueira da Foz em 2004 e agraciado com a Medalha de Ouro da Cidade em 2008. Em 2016, o Núcleo de Arquitetos da Região de Coimbra prestou-lhe nova homenagem, acompanhada do livro “José Isaías Cardoso. Um Moderno na Figueira da Foz”. Viria a falecer pouco depois, aos 94 anos.
Em 2022 assinalou-se o centenário do seu nascimento e, em 2024, o Município da Figueira da Foz, a Ordem dos Arquitetos e o Rotary Clube instituíram o Prémio Municipal de Arquitetura Arq. Isaías Cardoso, a par da edição do livro “Um arquitecto, uma cidade: Isaías Cardoso na Figueira da Foz”. O seu nome mantém-se, assim, ligado à arquitetura que continua a fazer-se na cidade.
“Um arquiteto, uma cidade.” Poucas expressões resumem tão bem a relação entre Isaías Cardoso e a Figueira da Foz.
Porque é que isto nos importa
Trabalhar em design de interiores numa cidade é também respeitar a arquitetura que a moldou. A obra de Isaías Cardoso lembra-nos que o bom desenho resiste ao tempo: linhas claras, relação honesta com a luz e com o lugar, materiais bem escolhidos. São princípios modernistas que continuam a orientar a forma como pensamos cada projeto — do exterior à última peça de mobiliário.